
20/03/2016
Liranja do dia

10/09/2015
Coisas desse género
27/09/2014
Rua Qualquer

-----------a maioria das pessoas apenas existe."
Nem sei qual a idade do puto. A suficiente mente e tomo-lhe siso de assalto em qualquer fim de rua. Imberbe contra-ataca, sorriso virado da vontade à cabeça, à vontade da cabeça e todo um novo horizonte em perspectiva. Inocente minto-lhe junto à parra, numa declaração rendida e suada em cima de um qualquer fim de ombro. Puto das cem idades saracoteia sua pevide e a penugem nas ventas. Cabeça num ombro, mão nas mãos de um qualquer fim de abraço. Meia-hora a tardar ou a ganhar na perspectiva e somos já sangue da mesma guelra. Das falanges sem cegueira, nó que nos rastilha mentira consentida, intemporal e elevada no horizonte. Erguido sobre um qualquer início de rua, puto diverte-se, sorriso atirado à má-fila, de olhos nas costas e toda uma declaração tomada de assalto: "Wow, tu tens força. És trinca-espinhas mas ainda me consegues levar ao céu!". Inocente, nem sei qual a idade do meu puto. A suficiente para me incendiar uma videira por inteiro e agradecer-lhe chão que já deu uvas. Saracoteio as ventas e contra-ataco: meia-hora, cem mais. Sem princípio nem desígnio a excelência dos pequenos e aromatizados momentos que nos habitam vielas sem licença nem preçário – à nossa conta nos vamos. Sem siso e sorriso feito pedaço ao caminho em toda a sua verdade e wow na firmação.
26/02/2014
Prazer, cacau.

27/01/2012
Amanhecer



Rodopia a garrafa em torno de si mesma. Pontue a expressão seguinte: “consequência ou verdade”. Doze pontos! Riso trocista na revelia gramatical. Arrepio nas costas. Dos bons. Segunda tentativa. Consequência. Um dos momentos na hora da verdade. Sessenta e tais minutos que se querem intemporais e intensos na vivência da palavra – amar. Rodopia a garrafa. Verdade. Que o sentimento é mais perene do que toda a expressão inacabada e o verbo mais rasgado e possante do que a prolixidade da sua conjugação. Que a branca cor se nos desnuda em transparência sempre que mergulhamos ponteiros e alma na mistura fina e primária da vida. E que o silêncio é colisão bruta e perfeita entre a noite e um novo oriente, quando não sabemos que horas são. Pontua rodopiante a expressão em torno da garrafa. Elevado! Arrepio trocista na revelia numérica. Momentos sem tentativas. Amar. Amar a Segunda. Amar doze. Amar a si mesma. Pontos nas costas – sim, riso. Dos bons. Os que nos enterram e libertam em palavras numa canção de amor. Quebra-se a garrafa. Consequência. E a verdade renasce mulher.
10/10/2011
Morning lullaby

A certa altura da vida cultivara o hábito de adormecer o seu poema em voz alheia. Nunca fora homem para aprender das linhas bonitas, mas amava a fragrância tirante a doce das melodias escorridas sobre a permeabilidade dos sentidos, em madrugada de cristal. Um, duas. Som. Experiência. Um sorriso amanhecido no cúmplice e próprio olhar dela e duas pilhas ressacadas pelo chão. Telefonia sem som. Outra luz não conheceu o seu pedaço de chão que não o brilho da manhã entoado pelos lábios dele. Naufragara neles alma e beijo ante a derradeira onda cartesiana. Mudou de estação. Alinhavou mil e duzentas palavras ao mundo! Rasgou ser. Acordou perfumista artesanal. Comprou uma telefonia castanha. Adormeceu. Experiência. A certa altura da madrugada cultivara o hábito de adormecer o seu poema em voz alheia. Sabia das linhas bonitas dos amantes, porto literário ancorado em preia-mar, mas amava a transparência adocicada do amanhecer escrito a uma só voz. Cristalina como o som da vida. Telefonia? Duas pilhas ressacadas pelo chão. Um poema.
07/07/2011
aqueloutro

“every new beginning comes from some other beginning's end”
--------------------------------------------------in i can read
Vai à boleia do verbo amar. Táxi verde. Tridimensionalmente verde. Esmeralda. Rasga estrada sob o calcanhar. Aquilos. Primo contrafaccionado de Aquiles e tio-avô d'Aqueloutro cuja graça grassa em memória calejada pela indiferença. Taxista por vocação. Intervalo de confiança: 8%. Vende verniz no mercado. Amarelo. O rasto pontilhado verbo fora pelo pé de Esmeralda. Ri-se o dedo moçoila – aqueloutro que nos falha ou sobeja na criatividade monocromática da última gota arrancada ao frasco. Errante. Amar no infinitivo. A janela aberta à conjugação dum cliché bonito, o telhado ensurdecido do mundo no grito bárbaro do cliché bonito!, e demais elegância do dedo que nos sustenta queda sobre um stiletto partido. Esmeralda entra no táxi às bolinhas amarelas. Ri-se a boleia na primeira pessoa, sobre saltos-altos. Verdes. Gosta do bonito. Plural e afirmativo. Desvio-padrão: está a olhar para ti. Não, está a olhar para Aqueloutro que apenas quer ser bonito. Sim, mais do que tu. Esmeralda consome vida em stéreo. Grita, selvagem! É o que tu quiseres. E uma unha pintada. Total da tua imaginação. Pessoal e sem margem de erro: o taxímetro no infinitivo e a estrada aos nossos pés. O sermos verbo. Amar.
15/06/2011
Brisa de verão

Desejo da expressão perpendicular.
Acto I
O sol boceja pela fresta da janela. O seu bafo quente abraça-lhe a tarde em segunda mão e o gin destila o espírito em estado puro. Ela finge que não o vê. Tamborila melodias surdas no ar e sorri. Da inspiração à decadência, conhece de cor a letra de todas as canções. Refinadas e orelhudas. Do refrão cadenciado ao verso de pé quebrado. Boas e más. Sobretudo as más: descontraídas e desconstruídas. Imperfeitas. Como o sorriso da Mona Lisa. Esboçado sobre as ondas sem aviso do peitoral dele em que ela naufraga a última estrofe: “Sou tão sexy que até dói!”. Silenciam-se os dedos, trilha-se o sol e renova-se o gin. Sim, ela não sabe cantar.
Acto II
A janela é aberta de par ao par e o bafo fresco como a mão que repousa sobre o espírito. Ele finge que não repara que ela finge que não reparou nele. Belisca as cordas na poesia singela daquele ser carmim e rouba dois acordes à guitarra. E outros dois. Os mesmos dois. E sorri. Da lingerie rendada ao saiote saloio, conhece as malhas da dança como ninguém. Cose nota a nota uma semana e veste a pauta ao Domingo. Aprecia palavras encharcadas. Boas e más. Sobretudo as dela: inefáveis e inesperadas. Perfeitas. Como as ondas 80% achocolatadas do seu cabelo em que ele tropeça um terceiro acorde embriagado. Mona Lisa range os dentes.
Acto III
Cheira a lua, a terra prometida e demais lugares comuns. O gin escorre pelas gargantas até à acidez do mergulho. Lima limão. Ela olha para ele e sorri com os mil e sete adjectivos que só o coração decifra. É mulher tragada pelo amor desde o primeiro acto. Mona Lisa suspira. Ele olha e sorri. Primeiro para ela e depois com ela. Porque sabe. De si como dos cubitos de gelo feitos fingimento rendido aos desígnios do segundo acto. De ambos, como a certeza do bolero arranhado em pensamento uno. Mona Lisa ensaboa os dois copos e meneia o pé. Ele abraça-lhe a tarde em segunda mão. Belisca-se o espírito em estado puro. Desalinham-se as rectas na oitava nota musical da guitarra. A janela amanhece semicerrada à segunda-feira e o sol ressacado. Espreguiça uns quantos raios, coloca os óculos escuros, boceja e sorri: “Sou tão sexy que até dói!”
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Porque uma Blogadinha nunca se deixa dormir, repousa...!
Via e-mail, o mimo da new optimism (ed. N.º 8) – obrigado!
23/04/2011
Breathe

"Apaixona-te pela tua existência."
Jack Kerouac
No pulmão esquerdo do mundo, ninguém nasce só para a vida. Sabemos as cor do grito e matéria de que somos feitos. Sonhamos a alternativa, vivemos a realidade. Conhecemos o nosso próximo em circunstância instantânea ou por intermédio máximo de cinco olhares. Somos um somatório de vivências e de experiências várias.
No pulmão direito do mundo, ninguém morre só na vida. Não sabemos porque estamos, no momento. Podemos sonhar a realidade ou viver a alternativa. Encerramos gerações perdidas no tempo e somos tempo nas histórias que tomarão o nosso lugar. Cruzamo-nos em vivências. Encontramo-nos na memória.
A vida é então uma curta viagem sem retorno que empreendemos juntos. Como números sorteados na continuidade do ciclo: nascemos e morremos num só corpo. Perdidos no trajecto, bebemos da nossa luz interior e partilhamos da fonte com a humanidade. Porque o que de melhor levamos do mundo são... os outros. Nós. A respiração.
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Aos leitores, votos de Feliz Páscoa!
13/04/2011
Espuma

Era uma daquelas terças-feiras em que o calor apetece e o banho nos arrefece. Pescoço, covinhas e vontade. Coração de jasmim... a mim... a mim... a mim... Rosas de maio e lírio no vale. Onde te levo e caço patinhos de verde borracha. Ontem tropecei num perfume de quinta e molhei o dedo indicador... o ardor... o ardor... o ardor... Enfiei-o pelo nariz do amor acima e partilhei da quinta essência: “Cheiro de mulher inimitável”. Espirrou. Sorri-lhe de volta. Confiscou-me os patinhos. Bolas! De sabonete sem macaco... o cacoete... o cacoete... o cacoete... banhar-me rosas e lírio nas tuas covinhas. Terças-feiras no vale, em que o calor nos apetece. Quinta essência no teu pescoço. Tropeçam os dedos em vontade jasmim. Verde a era partilhada que nos molha sorriso e coração de sabonete. Em borracha o amor onde te levo cacoete por mim acima e de volta, sem indicador. Mulher caçada e bolas confiscadas num perfume inimitável. Espirra o macaco. Banho d'espuma. Uma daquelas que nos arrefece cheiro e o ardor da quinta. Ontem. Patinhos de nariz enfiado nas terças-feiras. a... o... o... .
30/03/2011
Charmed life

"A minha mãe dizia que milagres acontecem todos os dias.
As pessoas parecem não acreditar nisso, mas é verdade."
-------------------------------------------in Forrest Gump
A íris dum arco raiado aos nossos pés. Manchada, achadinha e pedante – moeda, moedinha quem te ousou guarida sabendo que és minha? Retórica sem juros. Sorte sem pin e pon. Eis o charme da vida: levar-te para casa, vestir-te o meu melhor bolso e amar-te até à ferrugem ou despir-te ferrugem, amar-te sem telhado e levar-te meio bolso rasgado, de verde raiado. Que linda a falua que vem de Belém. Lá vai uma, lá vão duas... Moeda ao ar! Pinguços caem em frescura sobre as notas soltas da bateriazinha da Celeste. Brindam as fontes, ensaboam-se os desejos e versa Rouco, o papagaio: “Pin e pon foram ambos os dois rodopiar/um deles sorrirá queda à luz do luar/o outro não”. Celeste é flor molhada e partilha essência de rosas e desejos carmim no exotismo da sua dança – chamamento bélico reinventado. Para André, Mestre jardineiro numa falua que lá vem, lá vem... Moeda, moedinha, de que cor a tua íris? Pin e pon sem sorte – chuva preguiçosa e letal ao querer que se sabe sempre súbito e prévio na retórica. Peço ao senhor barqueiro que me deixe entrar. Passarei, passarás pela Catarina e os bolbos suturados do André. O gato berrou e as pombinhas sobrevoaram o luar sobre o Tejo. Celeste passou três curativos com mestria ao jardineiro. “Por pin e pon!”, exclamou de olho raiado o Rouco. Arco-íris aos nossos pés – puro charme... Como a vida. Sempre.
12/03/2011
Marçagão

-------- Manhã de Inverno, tarde de prata.
Às vezes é preciso deixar respirar a música, sabes? Abrir a janela do carro num gesto vagaroso, sentir na arrecadação pulmonar o ar que respiramos, dançar a batida oferecida com as pontas dos dedos, convidar articulações anónimas para coreografia improvisada e decadente e render voz rachada à audição de serrote de quem passa. Despir a manhã de Inverno e sorrir no fim do refrão. Salgar vida e seus ridículos nas ondas cartesianas. Pelo prazer de seres tu. Chave da tua estação. Às vezes acontece silenciares a música – o carro desdenha o gesticular mimado da tua mão sobre o destino. Pouco importa. Respira fundo, dança por ti e sorri. Depois fura-lhe os pneus... E canta aquele refrão cuja tradução da letra nunca aprendeste. Tarde de prata. Boa para andar a pé e morder a existência alheia. Como o bambolear deste jovem que caminha à minha frente: um emaranhado de passos ébrios e saltos tresloucados sobre os buracos da sua imaginação. De que sons se vestirá o seu dia? Não sei se sabes, mas às vezes é preciso deixar respirar a música.
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A de Amar – agora também no Facebook.
02/02/2011
nó cego

As linhas rectas são sensaboronas e o livro emprestado entediante. Gosto de pontapear os pontos finais sobre as curvas: chutar para canto o “the end”, derreter a coroa da princesa no corpo apetecível do vilão, passar a bola da castidade ao príncipe e gritar-lhe da longa vida ao ouvido, tomar de assalto o corpete mais vistoso lá do sítio e partilhar nele os meus atributos com a felicidade eterna do último parágrafo e uma chávena de café quente. O café, não a chávena. Perguntavam-me no outro dia se eu desejava café curto ou normal. Anuí na loucura oferecida e sorvi da intensidade... três chávenas seguidas. Tão quadradas e deslavadas como a armação na cara de contentamento de quem me serviu. O café sabe sempre a pouco e nós cegos quando queremos – pago o normal e retribuo sorriso pelas linhas extra. São apêndice bom numa qualquer tertúlia com pensamento perpendicular em mesa redonda. Opinar o fim do livro. Desventurosa a página arrancada à felicidade por empréstimo. E a princesa que nunca bebeu café quente na vida. E a bola do príncipe que soma parágrafos sem chuto. Mea culpa no assassinato literário. Mas este corpete, olha lá... é condenação gratuita: fica-me a matar! Gosto. Dos que escrevem amor sem saber como tocar ao coração. Nas curvas nos encontramos e sobre as mesmas nos amamos. Entrego os pontos. Tempera os finais. Escrevamos livros sem exemplo nem exemplares. E brindemos o “to be continued...” com alegria e uma chávena de café quente. O café e a chávena.
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Aos leitores que estão a registar dificuldades na actualização do blogue.
Obrigado pelo interesse e pela resolução manifestados nos comentários.
06/01/2011
Dulce fare niente
Sentada na “cadeira ex”, cara aos eis chegados amores e rumores sem assento nem partida efectiva. Que falta de chá. Três convites em dia e meio. Ceilão pixelado e selado em pau de canela. Numa das suas especiarias a minha tatuagem aos amantes iletrados. Para mais tarde recordar. Reciclagem. E-mail. E-mail. E-mail. São doidos por mim. Perdição pelo meu verniz novo. Azul fluorescente. O céu a pescar nuvens do mar. Peixes enjoadiços no vaivém das borboletas marinhas. Gregório, bons dias de volta!! Amo a memória conquistada do primeiro sorriso. E a elegância que ele confere à etiqueta trajada com o seu refrescante bamboleado. Fazia-lhe um fax. A4 na linha dois. Dás-me trim. J7 na linha três. Sabes como tocar ao coração de uma mulher ou duas. Trim trim trim... afundava-te num qualquer porta-aviões! Aqui jaz trambolhao. Quem me roubou o acento? Quem nos fez rijo o chão? Cobras, lagartos e mais trinta exemplares, que no palavrão sou turista e do acidente profissional. O universo anda a contrabandear a minha hora de almoço. Executo rascunhos deitada com distinção. Rebolo-me à volta do rato até ao enjoo. Gregório, sim, aceito... beber café contigo. Como é que te chamas mesmo? Mordo o ponto com tanta eficiência quanto a produtividade da tua leitura neste momento Entendeste? Puxa a cadeira e senta-te onde quiseres. Dulce volta já!
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De beijos e requisição de novos escritos se regista uma ausência.
Podemos curar a loucura mas nunca um espírito louco.
Obrigado pelo vosso – feliz ano a todos!
12/12/2010
Amar (também) é...

"O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis." Fernando Pessoa
03/12/2010
Momento
«Há uma Primavera em cada vida:
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!»
Florbela Espanca, in Amar
06/11/2010
Hoje há pipis!

António. Conheci-o neste elevador, há anos vários. Todo ele discreta presença e sedução. Babei-me logo no primeiro piso. António olhou-me de soslaio. Suspirei. António sorriu. Aproximei-me e António fez-se próximo. Da saída de emergência. Segundo e terceiro pisos elevados em contra-relógio emocional. Trinquei o pedaço. António suou. Entreguei-lhe desejo em mão aberta. António questionou. Retorqui: "Partilhamos pipi?". Quarto piso. Porta fora, António deslizado em temor e doçura. Comi pêra. Comi a pêra toda. Sozinha!
Se quer mas não sabe bem o que quer, marque 2
Pipis fritos com arroz malandrinho, humm... António. E o prazer das expectativas não proporcionadas pelos reencontros inesperados. Nesta mesma estalagem, há uns meses. Todo ele presença e sedução e já sem discrição alguma. Olhos na alma. Alma no corpo. Corpo no corpo. E pereiras. Onde se escondem as ditas, quando da cumplicidade da sua frescura uma mulher mais necessita?? António suspirou. Eu sorri. António aproximou-se. Eu suei. António não trincou o pedaço (hein?!) e eu questionei: "António, estás um homem e tanto – muito pipi!". António retorquiu: "Partilhamos...?".
Se quer... pi-i... pi-i... pi-i...
Campos verdejantes em visão periférica e brisa ilusoriamente pura no rosto, de tão fresca e libertadora – pode um sorriso rasgar-se por menos? Foi algures neste cenário que, sem mordomia nem hora marcada, o António descobriu a suculência do amor e nela babou apetite que me entregou de mãos abertas. Deslizei em temor e doçura. António parou o relógio. Olhámo-nos de frente, sorrimos, suámos e suspirámos. E o António questionou: "Pêras?". Afoguei o pipi na sua alegre inocência. E a vida retorquiu: "Partilhamos?...".
..., marque vida para dois.
E desligue o telefone, António.
22/10/2010
Simplesmente Maria

– Há sempre cinco velhotes sentados naquele banco do jardim.
– Quatro. São quatro os velhotes que lá se sentam diariamente.
Tive um sonho húmido. Despertei nele e no sobressalto o grito à vizinha dum qualquer andar cimeiro: “não podia regar o vaso noutra hora?!” Sim, a minha vizinha rega vazos vazios e plantas imaginárias – gosta do cheiro a terra molhada. Dizem-na simplesmente Maria, que da cerimónia a vizinha não assina trato nem costura. Já vestiu sonhos por demais e na mesma medida os homens que despiu na sua cama e as tendências da moda que chorou sexualmente não poder usufruir. Certa madrugada engatou corpo em forte odor a terra molhada. Maria rompeu costuras em pranto. O amante do dia roubara-lhe jóia vital. Magnólias. Maria crava as garras no coração e afixa os estilhaços pelas ruas fora com setas de azedume e alvíssaras. Três dias e quatro noites depois (precisão da vizinha do lado), Maria ainda faz amor com o coleccionador que há três dias e quatro noites lhe bateu à porta e lhe devolveu coração remendado. Sem cerimónia, a dita. Assumida em promessa de amor e de respeito terrenos, que a fidelidade é implícita e a ménage apadrinhada e testemunhada sobre a colcha de lã da avó da Maria, um mês depois. Vizinha minha... tive um sonho húmido. Vários. Rouca e molhada, bato com a porta e saio para negociar gripe com o florista. No regresso, três velhotes simpáticos acenam-me do jardim. Simplesmente. Maria. Nua na fragrância e crua na assinatura: culpa intervenção divina ao luar e sonha plantar o padre num vaso. Entreguei-lhe um pacote de sementes em mão. Tão solteira quanto a culpa soterrada, a raíz semeada e feita crença florida e individual. Magnólias, um dia. E cinco ou seis velhos sentados no banco do jardim.
10/10/2010
Sal e fogo

"Porque o fogo que me queima é o mesmo que me ilumina."
Étienne La Boétie
Atiça as brasas, menina. De ginja a tua mão medrada do espírito. Oitenta os machados que te golpeiam vida e que ardes na fogueira com destreza e de nariz torcido. No crepitar do coração, odor do teu corpo quente agasalhado no meu. Sinto-o em mim e sei-me aconchego na invernia da noite que não finda nem envelhece. Atiça as brasas, menina. Atiça-as e não lhes descures segredo. Frutado o olhar aninhado no espírito. Cinquenta, os troncos nos quais roço queda e corpo e na razão me levanto e volto a amar-te. Na lenha que nos entrelaça odores, promessa outonal surripiada e por nós gravada. Aconchegamos estações nossas. Somo-nos. Brasas. Atiça-as, menina! Florida a carqueja que te incendeia o corpo e te consome espírito. Vinte, as mãos e os corações que te jorram seu desejo e imperfeição matemática. Na madrugada beijada pelo sol, atiçamo-nos – fagulhas perpetuadas pelo cheiro da vida. Aconchega-se o Verão. Sei-me tua. Mulher. Atiça as brasas... De ginjeira o saber que te guarda nascença. Oito, o nariz num feito. Na fogueira menina, chamiços segredam espírito de Primavera renascida. Atiço as brasas. Como na vez primeira. Da chama vive o amor.
22/09/2010
Dar corda ao texto

«No que se conquista há que descontar o que se sofre para conquistar.
E o saldo é normalmente negativo.»
Vergílio Ferreira, in Conta-corrente 4