20/03/2016

Liranja do dia




Mariana bebe copos e aprende palavra bonita nos livros que nunca leu. Mariana esgaratuja seu segredo no canto de uma página aberta aos corações clandestinos. Ora um 'gin' ora 'génio' ora 'genuína... mente', cada sílaba absorvida a tempo, e meticulosamente arrotada, pelos trilhos da felicidade. Mariana escreve-te uma página, dois capítulos mais, impressão digital ao peito dos desalinhados, parágrafo sublinhado em sorriso. Duas páginas menos. Ora um 'gin', palavra bonita: feita num oito, o diabo a nove e adentro a excelência do ser sem querer nem dever. Mariana não fumega pela paz. É cachimbista por defeito, expressão naufragada às tontas e à vontade dos poemas partilhados em troca de um beijo salgado – de génio? Ora a leitura. Bebe mais umas frases e engata a existência pela caligrafia. Mariana escrevinha bonito dos dias que amanhecem promessa amarfanhada com sabor a lima limão, sem rodapés à memória que não a liberdade a páginas tantas! Três mais à consideração. Meticulosamente debruçada sobre uma varanda para o mar, em qualquer canto da imaginação: Mariana – sabe-se nos livros que não 'é bem' uma terceira pessoa no universo, segreda nos lábios do amor que a soma de todos os beijos é igual a um e bebe a felicidade de corpo inteiro, que a vida é canto aberto a quem dá na trilha com pé descalço e um verso no coração. Inspira o teu texto senão levas uma lombada! Genuína a mente embriagada na leitura, pois os copos não se bebem. Capítulo encerrado. Ora.

10/09/2015

Coisas desse género



Na verdade sabes como funciona, frequentaste escola na vida ou fizeste de mil e dois sóis a tua escola. Casaste-te, não foi? Não, não foi, quem casa é o padre. Ou o notário. Nota lá bem, quantas criaturas bebem café na vertical – junto ao balcão... às janela e margem de si... junto tempo ao tempo de viver? Chama-me Penélope quando me honrares passagem e coração no teu livro, cruzarei dedos à letra e gosto à brisa da árvore que vos viu nascer. Tiveste 1.3 filhos, um na natureza e três mais por atacado, não foi? Nã... senhora... a mãe é sempre uma querida. Sabes que dia é amanhã? Sábado, ouvi dizer. Não estás contente? Esquece, para a semana há mais. Outro que não o mesmo. Parágrafo e nota desalinhada: o ror de criaturas que dizem o amor com a ponta do dedo – frente ao amoled, à quietude e quiçá frente a frente, algures entre o balcão e a nossa janela. Ah!, interjeição catita, que no peito de um maneta e sua amada surda-muda bate o sentimento em retirada. Ou será Morse, num piscar de olhos. Chama-me o que tu quiseres, que de ti sou, bem me queres. Morreste, não foi? À terceira é de vez e o diabo a quatro, sabes como funciona tal estória: «Beijaram-se à filme português, infindável e insonoro, questionaram o tempo sem pulso nem relógio e pactuaram amor livre até que passasse por eles a camioneta das 18 horas... ou até terminar a greve dos transportes. Choveram chocolates do céu! Ok, com o elevado patrocínio e descuido da lambona do terceiro andar, mas choveram chocolates dos bons. Nesse momento, rebuçado e hollywoodesco, olham-se defronte e firmam caracteres sem filtros: “Da tua metade o meu etc. por inteiro, mas sofro de alergia a frases feitas.” Smile! Empurra as aspas para a direita, alinharei parágrafo. Olha como funcionamos! Ninguém nos casou. Temos 0.3 filhos e um par de marrecos. Reprovámos exame da felicidade mas todos os dias acrescentamos outro sorriso, que não o mesmo, a tal conceito. Fecha aspas. Verdade, morreste. É aquela cena: morremos todos num momento. Mas sem interjeição, a beijoca foi um estrondo – nota benne ou dos efeitos especiais assistidos pelo universo? Chamamentos. Quantas criaturas tardam em amanhecer e quanto sol por amar a tempo. Permuta à nossa alma: dou-te chocolate e dás-me café. Amanhã sabe Deus, que estudou. Nós vivemos.

27/09/2014

Rua Qualquer




----------"Viver é a coisa mais rara do mundo,
-----------a maioria das pessoas apenas existe."

----------------------------------------Oscar Wilde


Nem sei qual a idade do puto. A suficiente mente e tomo-lhe siso de assalto em qualquer fim de rua. Imberbe contra-ataca, sorriso virado da vontade à cabeça, à vontade da cabeça e todo um novo horizonte em perspectiva. Inocente minto-lhe junto à parra, numa declaração rendida e suada em cima de um qualquer fim de ombro. Puto das cem idades saracoteia sua pevide e a penugem nas ventas. Cabeça num ombro, mão nas mãos de um qualquer fim de abraço. Meia-hora a tardar ou a ganhar na perspectiva e somos já sangue da mesma guelra. Das falanges sem cegueira, nó que nos rastilha mentira consentida, intemporal e elevada no horizonte. Erguido sobre um qualquer início de rua, puto diverte-se, sorriso atirado à má-fila, de olhos nas costas e toda uma declaração tomada de assalto: "Wow, tu tens força. És trinca-espinhas mas ainda me consegues levar ao céu!". Inocente, nem sei qual a idade do meu puto. A suficiente para me incendiar uma videira por inteiro e agradecer-lhe chão que já deu uvas. Saracoteio as ventas e contra-ataco: meia-hora, cem mais. Sem princípio nem desígnio a excelência dos pequenos e aromatizados momentos que nos habitam vielas sem licença nem preçário – à nossa conta nos vamos. Sem siso e sorriso feito pedaço ao caminho em toda a sua verdade e wow na firmação.

26/02/2014

Prazer, cacau.



-----------------------------"O bom do livro é que se leia." 
---------------------------------------------Umberto Eco


Sapato não, que morde. Escreveu quinze horas e apagou-se. Depois escreveu três horas e atirou com o relógio contra a parede. Cada viagem começa com um pequeno passo e dois ponteiros rumo a Oeste. Escreveu doze e traçou fome ao dia. Comeu sobras de si e todo o chocolate do mundo. Sem requinte nem lambonice: oitenta e cinco por cento de prazer e o resto é cacau. Caminhou três horas. Escreveu três horas mais. Fecha aspas ao tempo. A parede desperta e vibra de contentamento. Morde praguejo em pé descalço: “enfia o raio dos ponteiros no Sul” – pontuação não, que viaja a passo largo. Horas. Um resto de tudo requintado em escrita diária. Lambe o que de si comeu e aconchega os dois ponteiros em meio quarto. Escreveu mundo, doze horas de enfiada, quarto de contentamento e quinze por cento de lambonice! Apagou-se a parede. Tempo. Uma crocante e luxuosa narrativa a descoberto num embrulho dourado. A sete minutos chão arraiado. Guarda o relógio no bolso mais pequeno da vida. Um pequeno passo. Cada viagem começa – sem pontuação. Ruma à fome do mundo. Escreveu o que melhor quis, para lá do tempo e de si. Vibração. São três horas! Ou quinze horas. Sabes lá – pragueja largo. Escreve. Descalça os sapatos. Caminha com todo o prazer em qualquer direcção. E o resto é cacau. Morde-te.

27/01/2012

Amanhecer



Rodopia a garrafa em torno de si mesma. Pontue a expressão seguinte: “consequência ou verdade”. Doze pontos! Riso trocista na revelia gramatical. Arrepio nas costas. Dos bons. Segunda tentativa. Consequência. Um dos momentos na hora da verdade. Sessenta e tais minutos que se querem intemporais e intensos na vivência da palavra – amar. Rodopia a garrafa. Verdade. Que o sentimento é mais perene do que toda a expressão inacabada e o verbo mais rasgado e possante do que a prolixidade da sua conjugação. Que a branca cor se nos desnuda em transparência sempre que mergulhamos ponteiros e alma na mistura fina e primária da vida. E que o silêncio é colisão bruta e perfeita entre a noite e um novo oriente, quando não sabemos que horas são. Pontua rodopiante a expressão em torno da garrafa. Elevado! Arrepio trocista na revelia numérica. Momentos sem tentativas. Amar. Amar a Segunda. Amar doze. Amar a si mesma. Pontos nas costas – sim, riso. Dos bons. Os que nos enterram e libertam em palavras numa canção de amor. Quebra-se a garrafa. Consequência. E a verdade renasce mulher.

10/10/2011

Morning lullaby


A certa altura da vida cultivara o hábito de adormecer o seu poema em voz alheia. Nunca fora homem para aprender das linhas bonitas, mas amava a fragrância tirante a doce das melodias escorridas sobre a permeabilidade dos sentidos, em madrugada de cristal. Um, duas. Som. Experiência. Um sorriso amanhecido no cúmplice e próprio olhar dela e duas pilhas ressacadas pelo chão. Telefonia sem som. Outra luz não conheceu o seu pedaço de chão que não o brilho da manhã entoado pelos lábios dele. Naufragara neles alma e beijo ante a derradeira onda cartesiana. Mudou de estação. Alinhavou mil e duzentas palavras ao mundo! Rasgou ser. Acordou perfumista artesanal. Comprou uma telefonia castanha. Adormeceu. Experiência. A certa altura da madrugada cultivara o hábito de adormecer o seu poema em voz alheia. Sabia das linhas bonitas dos amantes, porto literário ancorado em preia-mar, mas amava a transparência adocicada do amanhecer escrito a uma só voz. Cristalina como o som da vida. Telefonia? Duas pilhas ressacadas pelo chão. Um poema.

07/07/2011

aqueloutro



“every new beginning comes from some other beginning's end”
--------------------------------------------------in i can read


Vai à boleia do verbo amar. Táxi verde. Tridimensionalmente verde. Esmeralda. Rasga estrada sob o calcanhar. Aquilos. Primo contrafaccionado de Aquiles e tio-avô d'Aqueloutro cuja graça grassa em memória calejada pela indiferença. Taxista por vocação. Intervalo de confiança: 8%. Vende verniz no mercado. Amarelo. O rasto pontilhado verbo fora pelo pé de Esmeralda. Ri-se o dedo moçoila – aqueloutro que nos falha ou sobeja na criatividade monocromática da última gota arrancada ao frasco. Errante. Amar no infinitivo. A janela aberta à conjugação dum cliché bonito, o telhado ensurdecido do mundo no grito bárbaro do cliché bonito!, e demais elegância do dedo que nos sustenta queda sobre um stiletto partido. Esmeralda entra no táxi às bolinhas amarelas. Ri-se a boleia na primeira pessoa, sobre saltos-altos. Verdes. Gosta do bonito. Plural e afirmativo. Desvio-padrão: está a olhar para ti. Não, está a olhar para Aqueloutro que apenas quer ser bonito. Sim, mais do que tu. Esmeralda consome vida em stéreo. Grita, selvagem! É o que tu quiseres. E uma unha pintada. Total da tua imaginação. Pessoal e sem margem de erro: o taxímetro no infinitivo e a estrada aos nossos pés. O sermos verbo. Amar.

15/06/2011

Brisa de verão



Desejo da expressão perpendicular.



Acto I
O sol boceja pela fresta da janela. O seu bafo quente abraça-lhe a tarde em segunda mão e o gin destila o espírito em estado puro. Ela finge que não o vê. Tamborila melodias surdas no ar e sorri. Da inspiração à decadência, conhece de cor a letra de todas as canções. Refinadas e orelhudas. Do refrão cadenciado ao verso de pé quebrado. Boas e más. Sobretudo as más: descontraídas e desconstruídas. Imperfeitas. Como o sorriso da Mona Lisa. Esboçado sobre as ondas sem aviso do peitoral dele em que ela naufraga a última estrofe: “Sou tão sexy que até dói!”. Silenciam-se os dedos, trilha-se o sol e renova-se o gin. Sim, ela não sabe cantar.

Acto II
A janela é aberta de par ao par e o bafo fresco como a mão que repousa sobre o espírito. Ele finge que não repara que ela finge que não reparou nele. Belisca as cordas na poesia singela daquele ser carmim e rouba dois acordes à guitarra. E outros dois. Os mesmos dois. E sorri. Da lingerie rendada ao saiote saloio, conhece as malhas da dança como ninguém. Cose nota a nota uma semana e veste a pauta ao Domingo. Aprecia palavras encharcadas. Boas e más. Sobretudo as dela: inefáveis e inesperadas. Perfeitas. Como as ondas 80% achocolatadas do seu cabelo em que ele tropeça um terceiro acorde embriagado. Mona Lisa range os dentes.

Acto III
Cheira a lua, a terra prometida e demais lugares comuns. O gin escorre pelas gargantas até à acidez do mergulho. Lima limão. Ela olha para ele e sorri com os mil e sete adjectivos que só o coração decifra. É mulher tragada pelo amor desde o primeiro acto. Mona Lisa suspira. Ele olha e sorri. Primeiro para ela e depois com ela. Porque sabe. De si como dos cubitos de gelo feitos fingimento rendido aos desígnios do segundo acto. De ambos, como a certeza do bolero arranhado em pensamento uno. Mona Lisa ensaboa os dois copos e meneia o pé. Ele abraça-lhe a tarde em segunda mão. Belisca-se o espírito em estado puro. Desalinham-se as rectas na oitava nota musical da guitarra. A janela amanhece semicerrada à segunda-feira e o sol ressacado. Espreguiça uns quantos raios, coloca os óculos escuros, boceja e sorri: “Sou tão sexy que até dói!”


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Porque uma Blogadinha nunca se deixa dormir, repousa...!
Via e-mail, o mimo da new optimism (ed. N.º 8) – obrigado!

23/04/2011

Breathe



"Apaixona-te pela tua existência."
Jack Kerouac


No pulmão esquerdo do mundo, ninguém nasce só para a vida. Sabemos as cor do grito e matéria de que somos feitos. Sonhamos a alternativa, vivemos a realidade. Conhecemos o nosso próximo em circunstância instantânea ou por intermédio máximo de cinco olhares. Somos um somatório de vivências e de experiências várias.

No pulmão direito do mundo, ninguém morre só na vida. Não sabemos porque estamos, no momento. Podemos sonhar a realidade ou viver a alternativa. Encerramos gerações perdidas no tempo e somos tempo nas histórias que tomarão o nosso lugar. Cruzamo-nos em vivências. Encontramo-nos na memória.

A vida é então uma curta viagem sem retorno que empreendemos juntos. Como números sorteados na continuidade do ciclo: nascemos e morremos num só corpo. Perdidos no trajecto, bebemos da nossa luz interior e partilhamos da fonte com a humanidade. Porque o que de melhor levamos do mundo são... os outros. Nós. A respiração.


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Aos leitores, votos de Feliz Páscoa!

13/04/2011

Espuma

Era uma daquelas terças-feiras em que o calor apetece e o banho nos arrefece. Pescoço, covinhas e vontade. Coração de jasmim... a mim... a mim... a mim... Rosas de maio e lírio no vale. Onde te levo e caço patinhos de verde borracha. Ontem tropecei num perfume de quinta e molhei o dedo indicador... o ardor... o ardor... o ardor... Enfiei-o pelo nariz do amor acima e partilhei da quinta essência: “Cheiro de mulher inimitável”. Espirrou. Sorri-lhe de volta. Confiscou-me os patinhos. Bolas! De sabonete sem macaco... o cacoete... o cacoete... o cacoete... banhar-me rosas e lírio nas tuas covinhas. Terças-feiras no vale, em que o calor nos apetece. Quinta essência no teu pescoço. Tropeçam os dedos em vontade jasmim. Verde a era partilhada que nos molha sorriso e coração de sabonete. Em borracha o amor onde te levo cacoete por mim acima e de volta, sem indicador. Mulher caçada e bolas confiscadas num perfume inimitável. Espirra o macaco. Banho d'espuma. Uma daquelas que nos arrefece cheiro e o ardor da quinta. Ontem. Patinhos de nariz enfiado nas terças-feiras. a... o... o... .

30/03/2011

Charmed life



"A minha mãe dizia que milagres acontecem todos os dias.
As pessoas parecem não acreditar nisso, mas é verdade."
-------------------------------------------in Forrest Gump

A íris dum arco raiado aos nossos pés. Manchada, achadinha e pedante – moeda, moedinha quem te ousou guarida sabendo que és minha? Retórica sem juros. Sorte sem pin e pon. Eis o charme da vida: levar-te para casa, vestir-te o meu melhor bolso e amar-te até à ferrugem ou despir-te ferrugem, amar-te sem telhado e levar-te meio bolso rasgado, de verde raiado. Que linda a falua que vem de Belém. Lá vai uma, lá vão duas... Moeda ao ar! Pinguços caem em frescura sobre as notas soltas da bateriazinha da Celeste. Brindam as fontes, ensaboam-se os desejos e versa Rouco, o papagaio: “Pin e pon foram ambos os dois rodopiar/um deles sorrirá queda à luz do luar/o outro não”. Celeste é flor molhada e partilha essência de rosas e desejos carmim no exotismo da sua dança – chamamento bélico reinventado. Para André, Mestre jardineiro numa falua que lá vem, lá vem... Moeda, moedinha, de que cor a tua íris? Pin e pon sem sorte – chuva preguiçosa e letal ao querer que se sabe sempre súbito e prévio na retórica. Peço ao senhor barqueiro que me deixe entrar. Passarei, passarás pela Catarina e os bolbos suturados do André. O gato berrou e as pombinhas sobrevoaram o luar sobre o Tejo. Celeste passou três curativos com mestria ao jardineiro. “Por pin e pon!”, exclamou de olho raiado o Rouco. Arco-íris aos nossos pés – puro charme... Como a vida. Sempre.

12/03/2011

Marçagão



-------- Manhã de Inverno, tarde de prata.


Às vezes é preciso deixar respirar a música, sabes? Abrir a janela do carro num gesto vagaroso, sentir na arrecadação pulmonar o ar que respiramos, dançar a batida oferecida com as pontas dos dedos, convidar articulações anónimas para coreografia improvisada e decadente e render voz rachada à audição de serrote de quem passa. Despir a manhã de Inverno e sorrir no fim do refrão. Salgar vida e seus ridículos nas ondas cartesianas. Pelo prazer de seres tu. Chave da tua estação. Às vezes acontece silenciares a música – o carro desdenha o gesticular mimado da tua mão sobre o destino. Pouco importa. Respira fundo, dança por ti e sorri. Depois fura-lhe os pneus... E canta aquele refrão cuja tradução da letra nunca aprendeste. Tarde de prata. Boa para andar a pé e morder a existência alheia. Como o bambolear deste jovem que caminha à minha frente: um emaranhado de passos ébrios e saltos tresloucados sobre os buracos da sua imaginação. De que sons se vestirá o seu dia? Não sei se sabes, mas às vezes é preciso deixar respirar a música.


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A de Amar – agora também no Facebook.

02/02/2011

nó cego



As linhas rectas são sensaboronas e o livro emprestado entediante. Gosto de pontapear os pontos finais sobre as curvas: chutar para canto o “the end”, derreter a coroa da princesa no corpo apetecível do vilão, passar a bola da castidade ao príncipe e gritar-lhe da longa vida ao ouvido, tomar de assalto o corpete mais vistoso lá do sítio e partilhar nele os meus atributos com a felicidade eterna do último parágrafo e uma chávena de café quente. O café, não a chávena. Perguntavam-me no outro dia se eu desejava café curto ou normal. Anuí na loucura oferecida e sorvi da intensidade... três chávenas seguidas. Tão quadradas e deslavadas como a armação na cara de contentamento de quem me serviu. O café sabe sempre a pouco e nós cegos quando queremos – pago o normal e retribuo sorriso pelas linhas extra. São apêndice bom numa qualquer tertúlia com pensamento perpendicular em mesa redonda. Opinar o fim do livro. Desventurosa a página arrancada à felicidade por empréstimo. E a princesa que nunca bebeu café quente na vida. E a bola do príncipe que soma parágrafos sem chuto. Mea culpa no assassinato literário. Mas este corpete, olha lá... é condenação gratuita: fica-me a matar! Gosto. Dos que escrevem amor sem saber como tocar ao coração. Nas curvas nos encontramos e sobre as mesmas nos amamos. Entrego os pontos. Tempera os finais. Escrevamos livros sem exemplo nem exemplares. E brindemos o “to be continued...” com alegria e uma chávena de café quente. O café e a chávena.


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Aos leitores que estão a registar dificuldades na actualização do blogue.
Obrigado pelo interesse e pela resolução manifestados nos comentários.

06/01/2011

Dulce fare niente

Sentada na “cadeira ex”, cara aos eis chegados amores e rumores sem assento nem partida efectiva. Que falta de chá. Três convites em dia e meio. Ceilão pixelado e selado em pau de canela. Numa das suas especiarias a minha tatuagem aos amantes iletrados. Para mais tarde recordar. Reciclagem. E-mail. E-mail. E-mail. São doidos por mim. Perdição pelo meu verniz novo. Azul fluorescente. O céu a pescar nuvens do mar. Peixes enjoadiços no vaivém das borboletas marinhas. Gregório, bons dias de volta!! Amo a memória conquistada do primeiro sorriso. E a elegância que ele confere à etiqueta trajada com o seu refrescante bamboleado. Fazia-lhe um fax. A4 na linha dois. Dás-me trim. J7 na linha três. Sabes como tocar ao coração de uma mulher ou duas. Trim trim trim... afundava-te num qualquer porta-aviões! Aqui jaz trambolhao. Quem me roubou o acento? Quem nos fez rijo o chão? Cobras, lagartos e mais trinta exemplares, que no palavrão sou turista e do acidente profissional. O universo anda a contrabandear a minha hora de almoço. Executo rascunhos deitada com distinção. Rebolo-me à volta do rato até ao enjoo. Gregório, sim, aceito... beber café contigo. Como é que te chamas mesmo? Mordo o ponto com tanta eficiência quanto a produtividade da tua leitura neste momento Entendeste? Puxa a cadeira e senta-te onde quiseres. Dulce volta já!


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De beijos e requisição de novos escritos se regista uma ausência.
Podemos curar a loucura mas nunca um espírito louco.
Obrigado pelo vosso – feliz ano a todos!

12/12/2010

Amar (também) é...



"O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis." Fernando Pessoa


... tomar banho ao luar, mordiscar a vida dos outros com chocolate, cuspir o caroço da eternidade com sabedoria e pendurar as botas atrás da porta. E partir com a frescura da brisa da manhã. Aqui e de vez em quando. Com a alma lavada, um olhar comprometido na cadência do horizonte e um sorriso aberto anexado ao peito. Respirar porque é preciso. Respirar fundo em essência exalada por inteiro e respirar mais dentro, que em nós vive a poesia e as cerejas. É devolver semente ao capricho da natureza infértil e surpreender a vida com um chocho. Aqui. E de vez em quando... acalentado pelos trilhos misteriosos das flores que testemunham o pôr-do-sol e nos fazem cócegas desde os pés ao riso ora-ora: ora desbragado, ora achocolatado e ora a alma da criança que se diverte – sempre a dos outros e a qual nunca deixámos de ser. Com frescura e sabedoria. Limpamos cantos à boca e rasto à esquina da existência e declamamos alvorada sem solenidade. Respiramo-nos fundo e amarelamos o horizonte com um sorriso. De vez em quando a brisa empurra-nos a porta com aroma concentrado de chocolate e amizade adstringente. Aqui amamos e arejamos o anexo. E partimos. Sem nunca mordiscar a última fatia.

03/12/2010

Momento


           «Há uma Primavera em cada vida:

           É preciso cantá-la assim florida,
           Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!»

           Florbela Espanca, in Amar




Enya é corpo quente na desgarrada do amor. Quentes as voltas inteiras, os versos apunhalados e as rimas choradas a rir – voltas estranhas até ser inteiro o verso entranhado por rimas de amor. Enya. Corpo quente em aroma de rosas secas. Viaja nele, clandestinamente e sem disfarce. Sid inspira-a e exala de si ventos impulsivos, intensos. Poema rasgado no penúltimo verso. Punhal. Enya é corpo e a sua alma perfume. Sem rima nem pesar. Voltas estranhas, apenas. Desgarrada do amor, a roseira que lhe consome entranhas e tempestade em arte plagiada. Enya é riso e Sid pétala sem direitos de autor – versos inteiros em desafio condenado. Punhal: carnal, aromatizado e poético. Respiração.

06/11/2010

Hoje há pipis!




Se quer beijo molhado e coração embaciado, marque 1

António. Conheci-o neste elevador, há anos vários. Todo ele discreta presença e sedução. Babei-me logo no primeiro piso. António olhou-me de soslaio. Suspirei. António sorriu. Aproximei-me e António fez-se próximo. Da saída de emergência. Segundo e terceiro pisos elevados em contra-relógio emocional. Trinquei o pedaço. António suou. Entreguei-lhe desejo em mão aberta. António questionou. Retorqui: "Partilhamos pipi?". Quarto piso. Porta fora, António deslizado em temor e doçura. Comi pêra. Comi a pêra toda. Sozinha!

Se quer mas não sabe bem o que quer, marque 2

Pipis fritos com arroz malandrinho, humm... António. E o prazer das expectativas não proporcionadas pelos reencontros inesperados. Nesta mesma estalagem, há uns meses. Todo ele presença e sedução e já sem discrição alguma. Olhos na alma. Alma no corpo. Corpo no corpo. E pereiras. Onde se escondem as ditas, quando da cumplicidade da sua frescura uma mulher mais necessita?? António suspirou. Eu sorri. António aproximou-se. Eu suei. António não trincou o pedaço (hein?!) e eu questionei: "António, estás um homem e tanto – muito pipi!". António retorquiu: "Partilhamos...?".

Se quer... pi-i... pi-i... pi-i...

Campos verdejantes em visão periférica e brisa ilusoriamente pura no rosto, de tão fresca e libertadora – pode um sorriso rasgar-se por menos? Foi algures neste cenário que, sem mordomia nem hora marcada, o António descobriu a suculência do amor e nela babou apetite que me entregou de mãos abertas. Deslizei em temor e doçura. António parou o relógio. Olhámo-nos de frente, sorrimos, suámos e suspirámos. E o António questionou: "Pêras?". Afoguei o pipi na sua alegre inocência. E a vida retorquiu: "Partilhamos?...".

..., marque vida para dois.
E desligue o telefone, António.

22/10/2010

Simplesmente Maria



Há sempre cinco velhotes sentados naquele banco do jardim.

Quatro. São quatro os velhotes que lá se sentam diariamente.

Tive um sonho húmido. Despertei nele e no sobressalto o grito à vizinha dum qualquer andar cimeiro: “não podia regar o vaso noutra hora?!” Sim, a minha vizinha rega vazos vazios e plantas imaginárias – gosta do cheiro a terra molhada. Dizem-na simplesmente Maria, que da cerimónia a vizinha não assina trato nem costura. Já vestiu sonhos por demais e na mesma medida os homens que despiu na sua cama e as tendências da moda que chorou sexualmente não poder usufruir. Certa madrugada engatou corpo em forte odor a terra molhada. Maria rompeu costuras em pranto. O amante do dia roubara-lhe jóia vital. Magnólias. Maria crava as garras no coração e afixa os estilhaços pelas ruas fora com setas de azedume e alvíssaras. Três dias e quatro noites depois (precisão da vizinha do lado), Maria ainda faz amor com o coleccionador que há três dias e quatro noites lhe bateu à porta e lhe devolveu coração remendado. Sem cerimónia, a dita. Assumida em promessa de amor e de respeito terrenos, que a fidelidade é implícita e a ménage apadrinhada e testemunhada sobre a colcha de lã da avó da Maria, um mês depois. Vizinha minha... tive um sonho húmido. Vários. Rouca e molhada, bato com a porta e saio para negociar gripe com o florista. No regresso, três velhotes simpáticos acenam-me do jardim. Simplesmente. Maria. Nua na fragrância e crua na assinatura: culpa intervenção divina ao luar e sonha plantar o padre num vaso. Entreguei-lhe um pacote de sementes em mão. Tão solteira quanto a culpa soterrada, a raíz semeada e feita crença florida e individual. Magnólias, um dia. E cinco ou seis velhos sentados no banco do jardim.

10/10/2010

Sal e fogo



"Porque o fogo que me queima é o mesmo que me ilumina."
Étienne La Boétie


Atiça as brasas, menina. De ginja a tua mão medrada do espírito. Oitenta os machados que te golpeiam vida e que ardes na fogueira com destreza e de nariz torcido. No crepitar do coração, odor do teu corpo quente agasalhado no meu. Sinto-o em mim e sei-me aconchego na invernia da noite que não finda nem envelhece. Atiça as brasas, menina. Atiça-as e não lhes descures segredo. Frutado o olhar aninhado no espírito. Cinquenta, os troncos nos quais roço queda e corpo e na razão me levanto e volto a amar-te. Na lenha que nos entrelaça odores, promessa outonal surripiada e por nós gravada. Aconchegamos estações nossas. Somo-nos. Brasas. Atiça-as, menina! Florida a carqueja que te incendeia o corpo e te consome espírito. Vinte, as mãos e os corações que te jorram seu desejo e imperfeição matemática. Na madrugada beijada pelo sol, atiçamo-nos – fagulhas perpetuadas pelo cheiro da vida. Aconchega-se o Verão. Sei-me tua. Mulher. Atiça as brasas... De ginjeira o saber que te guarda nascença. Oito, o nariz num feito. Na fogueira menina, chamiços segredam espírito de Primavera renascida. Atiço as brasas. Como na vez primeira. Da chama vive o amor.

22/09/2010

Dar corda ao texto



«No que se conquista há que descontar o que se sofre para conquistar.
E o saldo é normalmente negativo.»

Vergílio Ferreira, in Conta-corrente 4



Nos gritos da meia-noite, moça mui desamparada e enamorada se entregou. Na medida da posse, catorze centímetros pecados por defeito entre as mãos e o destino. Na imperfeição, tigresse que se faz recolher em capricho numa chuva para tolos. No tempo, um sobrolho meio depilado e a folgança do lobo que se diz sexy na visão. No uivo ruidoso de quem faz anunciar a chegada, pés descalços e cabeças ensopadas diluem loucura e inocência na sapataria mais próxima. Nas lonas pela floresta encantada, uma tigresse albina reivindica borrões e pragueja os saldos, numa poça de lama. No brado arrastado pela corrente, lobo que estremece vaidade extrema e socorre a moça desamparada. Na cadeia da inutilidade, ressuscitam catorze centímetros em saltos, nas manápulas do jovem lobo. No despertar da incredulidade, moça que grita visão em pensamento: “Chiça, não tinhas nenhuma avozinha para comer...?”. Na fome sintonizado, lobo que lambe pinguços caídos do meio sobrolho: “Amou, Gata? A minha underware, adivinha cá... 100% tigresse!”. Na percentagem exacta da tolice, monção que suspira e relógio que pende para a meia-noite...