27/01/12

Amanhecer



Rodopia a garrafa em torno de si mesma. Pontue a expressão seguinte: “consequência ou verdade”. Doze pontos! Riso trocista na revelia gramatical. Arrepio nas costas. Dos bons. Segunda tentativa. Consequência. Um dos momentos na hora da verdade. Sessenta e tais minutos que se querem intemporais e intensos na vivência da palavra – amar. Rodopia a garrafa. Verdade. Que o sentimento é mais perene do que toda a expressão inacabada e o verbo mais rasgado e possante do que a prolixidade da sua conjugação. Que a branca cor se nos desnuda em transparência sempre que mergulhamos ponteiros e alma na mistura fina e primária da vida. E que o silêncio é colisão bruta e perfeita entre a noite e um novo oriente, quando não sabemos que horas são. Pontua rodopiante a expressão em torno da garrafa. Elevado! Arrepio trocista na revelia numérica. Momentos sem tentativas. Amar. Amar a Segunda. Amar doze. Amar a si mesma. Pontos nas costas – sim, riso. Dos bons. Os que nos enterram e libertam em palavras numa canção de amor. Quebra-se a garrafa. Consequência. E a verdade renasce mulher.

10/10/11

Morning lullaby


A certa altura da vida cultivara o hábito de adormecer o seu poema em voz alheia. Nunca fora homem para aprender das linhas bonitas, mas amava a fragrância tirante a doce das melodias escorridas sobre a permeabilidade dos sentidos, em madrugada de cristal. Um, duas. Som. Experiência. Um sorriso amanhecido no cúmplice e próprio olhar dela e duas pilhas ressacadas pelo chão. Telefonia sem som. Outra luz não conheceu o seu pedaço de chão que não o brilho da manhã entoado pelos lábios dele. Naufragara neles alma e beijo ante a derradeira onda cartesiana. Mudou de estação. Alinhavou mil e duzentas palavras ao mundo! Rasgou ser. Acordou perfumista artesanal. Comprou uma telefonia castanha. Adormeceu. Experiência. A certa altura da madrugada cultivara o hábito de adormecer o seu poema em voz alheia. Sabia das linhas bonitas dos amantes, porto literário ancorado em preia-mar, mas amava a transparência adocicada do amanhecer escrito a uma só voz. Cristalina como o som da vida. Telefonia? Duas pilhas ressacadas pelo chão. Um poema.

07/07/11

aqueloutro



“every new beginning comes from some other beginning's end”
--------------------------------------------------in i can read


Vai à boleia do verbo amar. Táxi verde. Tridimensionalmente verde. Esmeralda. Rasga estrada sob o calcanhar. Aquilos. Primo contrafaccionado de Aquiles e tio-avô d'Aqueloutro cuja graça grassa em memória calejada pela indiferença. Taxista por vocação. Intervalo de confiança: 8%. Vende verniz no mercado. Amarelo. O rasto pontilhado verbo fora pelo pé de Esmeralda. Ri-se o dedo moçoila – aqueloutro que nos falha ou sobeja na criatividade monocromática da última gota arrancada ao frasco. Errante. Amar no infinitivo. A janela aberta à conjugação dum cliché bonito, o telhado ensurdecido do mundo no grito bárbaro do cliché bonito!, e demais elegância do dedo que nos sustenta queda sobre um stiletto partido. Esmeralda entra no táxi às bolinhas amarelas. Ri-se a boleia na primeira pessoa, sobre saltos-altos. Verdes. Gosta do bonito. Plural e afirmativo. Desvio-padrão: está a olhar para ti. Não, está a olhar para Aqueloutro que apenas quer ser bonito. Sim, mais do que tu. Esmeralda consome vida em stéreo. Grita, selvagem! É o que tu quiseres. E uma unha pintada. Total da tua imaginação. Pessoal e sem margem de erro: o taxímetro no infinitivo e a estrada aos nossos pés. O sermos verbo. Amar.

15/06/11

Brisa de verão



Desejo da expressão perpendicular.



Acto I
O sol boceja pela fresta da janela. O seu bafo quente abraça-lhe a tarde em segunda mão e o gin destila o espírito em estado puro. Ela finge que não o vê. Tamborila melodias surdas no ar e sorri. Da inspiração à decadência, conhece de cor a letra de todas as canções. Refinadas e orelhudas. Do refrão cadenciado ao verso de pé quebrado. Boas e más. Sobretudo as más: descontraídas e desconstruídas. Imperfeitas. Como o sorriso da Mona Lisa. Esboçado sobre as ondas sem aviso do peitoral dele em que ela naufraga a última estrofe: “Sou tão sexy que até dói!”. Silenciam-se os dedos, trilha-se o sol e renova-se o gin. Sim, ela não sabe cantar.

Acto II
A janela é aberta de par ao par e o bafo fresco como a mão que repousa sobre o espírito. Ele finge que não repara que ela finge que não reparou nele. Belisca as cordas na poesia singela daquele ser carmim e rouba dois acordes à guitarra. E outros dois. Os mesmos dois. E sorri. Da lingerie rendada ao saiote saloio, conhece as malhas da dança como ninguém. Cose nota a nota uma semana e veste a pauta ao Domingo. Aprecia palavras encharcadas. Boas e más. Sobretudo as dela: inefáveis e inesperadas. Perfeitas. Como as ondas 80% achocolatadas do seu cabelo em que ele tropeça um terceiro acorde embriagado. Mona Lisa range os dentes.

Acto III
Cheira a lua, a terra prometida e demais lugares comuns. O gin escorre pelas gargantas até à acidez do mergulho. Lima limão. Ela olha para ele e sorri com os mil e sete adjectivos que só o coração decifra. É mulher tragada pelo amor desde o primeiro acto. Mona Lisa suspira. Ele olha e sorri. Primeiro para ela e depois com ela. Porque sabe. De si como dos cubitos de gelo feitos fingimento rendido aos desígnios do segundo acto. De ambos, como a certeza do bolero arranhado em pensamento uno. Mona Lisa ensaboa os dois copos e meneia o pé. Ele abraça-lhe a tarde em segunda mão. Belisca-se o espírito em estado puro. Desalinham-se as rectas na oitava nota musical da guitarra. A janela amanhece semicerrada à segunda-feira e o sol ressacado. Espreguiça uns quantos raios, coloca os óculos escuros, boceja e sorri: “Sou tão sexy que até dói!”


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Porque uma Blogadinha nunca se deixa dormir, repousa...!
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