Desejo da expressão perpendicular.
Acto I
O sol boceja pela fresta da janela. O seu bafo quente abraça-lhe a tarde em segunda mão e o gin destila o espírito em estado puro. Ela finge que não o vê. Tamborila melodias surdas no ar e sorri. Da inspiração à decadência, conhece de cor a letra de todas as canções. Refinadas e orelhudas. Do refrão cadenciado ao verso de pé quebrado. Boas e más. Sobretudo as más: descontraídas e desconstruídas. Imperfeitas. Como o sorriso da Mona Lisa. Esboçado sobre as ondas sem aviso do peitoral dele em que ela naufraga a última estrofe: “Sou tão sexy que até dói!”. Silenciam-se os dedos, trilha-se o sol e renova-se o gin. Sim, ela não sabe cantar.
Acto II
A janela é aberta de par ao par e o bafo fresco como a mão que repousa sobre o espírito. Ele finge que não repara que ela finge que não reparou nele. Belisca as cordas na poesia singela daquele ser carmim e rouba dois acordes à guitarra. E outros dois. Os mesmos dois. E sorri. Da lingerie rendada ao saiote saloio, conhece as malhas da dança como ninguém. Cose nota a nota uma semana e veste a pauta ao Domingo. Aprecia palavras encharcadas. Boas e más. Sobretudo as dela: inefáveis e inesperadas. Perfeitas. Como as ondas 80% achocolatadas do seu cabelo em que ele tropeça um terceiro acorde embriagado. Mona Lisa range os dentes.
Acto III
Cheira a lua, a terra prometida e demais lugares comuns. O gin escorre pelas gargantas até à acidez do mergulho. Lima limão. Ela olha para ele e sorri com os mil e sete adjectivos que só o coração decifra. É mulher tragada pelo amor desde o primeiro acto. Mona Lisa suspira. Ele olha e sorri. Primeiro para ela e depois com ela. Porque sabe. De si como dos cubitos de gelo feitos fingimento rendido aos desígnios do segundo acto. De ambos, como a certeza do bolero arranhado em pensamento uno. Mona Lisa ensaboa os dois copos e meneia o pé. Ele abraça-lhe a tarde em segunda mão. Belisca-se o espírito em estado puro. Desalinham-se as rectas na oitava nota musical da guitarra. A janela amanhece semicerrada à segunda-feira e o sol ressacado. Espreguiça uns quantos raios, coloca os óculos escuros, boceja e sorri: “Sou tão sexy que até dói!”
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Porque uma Blogadinha nunca se deixa dormir, repousa...!
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new optimism (ed. N.º 8) – obrigado!