2.2.10

Ponto estrada



"Todo o homem é culpado do bem que não fez."
Voltaire

Da minha janela, vida tanta que consumo, reparto e destino. No caminhar que dizemos nosso, rasto público, repetido e perdido algures no horizonte, entre o conformismo e a curiosidade de quem nos devora e sobre nós conjectura cada passagem, seja de despedida ou de chegada.

Numa hora só minha, sento pedaços meus no parapeito da janela e trinco rebuçados como se não houvesse amanhã. Tão babado como os sabores que me corrompem o espírito naquele momento, o frouxo desdém do vizinho da frente que me condena as irreverência e criancice.

Qual rito gravado na pele, a ideia de maturidade associada à capacidade de afirmação do que não gostamos. Inalada a vivência, memórias de capricho e de ideia fixa cuja atribuição exalo sobre quem me retrata nos mesmos o perfil. E nesta convicção esfumaçada, demais indiferença que debruço e proclamo sobre a janela: Vai bugiar, também não gosto de ti!

12.11.09

Doce laranja



"A vida mais doce é não pensar em nada."
Friedrich Nietzsche

Espantosa esta capacidade de amarmos o próximo sem condição nem conhecimento implicados. Como uma aragem mentolada que um dia nos sobrevoa em forma de espiral libertando, sobre a nossa intuição, doces e frescas tatuagens levando-nos de vencida a rendição dos sentidos e da alma.

Sentada numa cadeira de baloiço, compunha o seu chapéu a alegre dama enquanto me contava histórias daquilo que eu não vira. Entre uma garfada de bolo e dois golos de chá, arregalava o olho no futuro e sorria-me desmedidamente. Na benevolência daquele gesto, trilhava cada migalha por ela desvendada.

Perdidos numa qualquer tarde soalheira, aromas de chocolate e de menta à descrição sensorial. Entre a existência e dois dedos de leitura, mãos que me rasgam o céu em ternura e pensamentos dedilhados. Na cumplicidade feminina que nos norteia, entrego-me em confissão e esperneio o meu amor por laranjas.

Da acidez do mergulho, palavra fim exalada com frescura hereditária:

... mas adoro o teu sorriso! Vais ser a melhor mãe da minha história.

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Longe da escrita mas perto da afirmação da leitura.
Grata pelo carinho e memória revelados na ausência.

12.9.09

Dúvida existencial



"Vive o instante que passa.
Porque nunca mais ele será o mesmo nem tu que o estás vivendo."
Vergílio Ferreira, in Conta-Corrente IV

A continuidade da espécie humana é salvaguardada por cada um de nós. Qualquer ente começa por ser uma outra essência, uma outra vida, um reflexo da sua própria história. Não, espera, não é nada disto que te quero dizer! Bem sabemos da origem: a vida começa numa flor, certo? Numa pequena e simples flor.

E numa troca de olhares patrocinada pelo destino. E na ferroada da abelha que nos repreende a falta de atenção. A vida começa num palavrão, porra! E no sorriso de quem assiste à cena com visível deleite. Naquele sorriso... e na sua mão quente que nos afaga os azedume e queixume por tempo indeterminado.

No sexo. No jardim. A vida começa numa noite de sexo tórrido no jardim, no qual as abelhas morrem e os mosquitos coram mas aprendem a lição. E na sinceridade praticada em nome próprio. Na amizade, na paixão e no amor. Num beijo roubado em lugar confinado ao esquecimento. Numa única palavra.

A vida começa no grito assertivo de um recém-nascido. E de outro, ainda. E mais outroque o amor é surdo e demanda as suas testemunhas! Começa em vivências recriadas, experiências partilhadas e legados assumidos com pompa e orgulho.

Igualmente começa numa folha de papel em branco. E em cada sonho tornado realidade. A vida começa num tapete puxado à deambulação do texto. E naquela mão quente que nos devolve à convicção da flor oferecida. Uma pequena e simples flor. Sim, é assim que começa. E era isto que te queria dizer. Certo?

22.8.09

Mais dentro



"Alguns pressentem a chuva;
Outros contentam-se em molhar-se."
Henry Miller

Há dias que correm sem pressa de chegar. Caminhos incertos sem ninguém que os queira contornar. Em labirintos de sol e de saudade, dois corpos perdidos que assaltam o muro da contemplação sem nada revelar. Entre o olhar e a voz, o silêncio de quem grita fragmentos de pinhão e de pêra fresca e o sorriso introvertido de quem gruda no chão, à má fila, discernimento e inocência matinal.

O caminho é deserto e a vida a sua margem. Sobre muro arrebatado pelo tempo semeiam-se memórias, alimentam-se vontades e rasga-se no peito a paixão mais amadurecida. Como palavra à deriva em folha de papel, assim o sentir que se aninha entre a razão e o prazer de tanto conseguir ler sem nada dizer.

No deleite do fruto que finda, duas almas que se reencontram para de novo se entregarem ao aroma da vida. Sem pressa, os dias que adormecem sobre uma mão aberta num horizonte a descoberto. No silêncio do crepúsculo vagueiam, impunes, letras trocadas de um muro sempre teu. Num caminho tão nosso.

28.7.09

No melhor pano



Natureza feminina que enobrece da vaidade não padece.
Qual pérola inquinada, escorre pelo corpo o sumo da maçã trincada a contragosto.
Volúvel o artifício, desnudada a objectiva de quem rouba ao sorriso a sua essência.
No silêncio de quem nada perde, a certeza do momento e a volatilidade da memória capturada.

Em pomar azeirado, alma que mitiga as vontades e adensa sua liberdade individual.
Do e para o mundo a descendência e nas pérolas da aurora a minha estrada.

Quebra-se o tempo no olhar.
Sigo viagem.


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No querer de não mais deambular pelo imaginário, assalta-me o fim a sua libertação.
Em eco demandado, emoção rasgada na palavra e rosto de quem se atreve os rascunhos.

Se não é ocasional cada coincidência, aceite-se a complexidade do destino.
Na partilha do verbo, a excepção da primeira pessoa à pontualidade textual.