29/04/2010

Balão com ideias dentro



Psst! Sim, tu. Aproxima-te. Mais perto.
Vou contar-te sobre o segredo da vida.

Alguém me chama ao telefone.
Espera um pouco, volto já.

(...)

Aí a ouvir a conversa alheia? Estou a brincar. Era a amiga Francisca ao telefone. Curioso... há pessoas que adjectivam uma amizade inteira, relegando nessa medida predicado fulcral: verdade. Deste modo a natureza da Francisca e a simplicidade no trato, cujo desgaste assumimos até à última letra: amiga.

Pois esta minha amiga tinha um cão que a levava a passear diariamente pelos pequenos deleites da existência: sinfonias orquestradas por excelsas pardalocas, essências frescas e delicadas exaladas por rosas desabrochadas e almas coloridas. Farejando Primavera mais alternativa, um dia o cão fugiu pela porta das traseiras.

Na rua, amiga desvairada. A cartilha ensinara-lhe da cegueira do amor, mas o quotidiano revelava-lhe iletracia sentimental em estado arreigado, ante amor impessoal e irracional. Na loucura, pedra que atira sobre a maestrina e que acerta numa roseira, tornando o ar mais rarefeito.

À sua sorte, aproxima-se do jardim e depois das flores. E depois ainda, daquela roseira em particular. Uma roseira que escondia sob si caracóis de cores tais, que Francisca nem sabia o nome. Caracóis que, tal como ela, deambulavam sem rumo mas com sorriso estonteante.

À medida que lhe sorriam, Francisca sentia no corpo brisa mais concentrada e fresca. Em inspiração forte que nos rouba à razão, absorve aquele silêncio cheio de vida e sente no ombro caracol mais afoito que exclama: "Ah, encontrou a minha aguarela! Adiantava-me eu na captura do momento ao momento da captura dessas belas caracoletas, quando este focinho deveras aventureiro me derrubou o cavalete..."

(...)

Psst! Sim... tu. O amor é um pincel e tanto, não é?
Como o é toda esta conversa, pensarás tu questionando já a minha palavra.

Há dois dias roubei um caracol ao marido da Francisca. Rabisquei-o, dobrei-o e escondi-o num balão. Uma vez cheio e atado, ergui o balão bem alto e de lá a cor audível do caracol:

Podes fazer da vida um sonho, ou...

Na contrapartida que ao devaneio assiste, soltei o balão e fiz-me à realidade. Se às tuas mãos for parar, não hesites: vive o teu momento e não interrompas uma senhora quando fala – pois esse, ilustre tu, é o segredo da vida!

12 comentários:

Å®t Øf £övë disse...

Blogadinha,
Sim, podemos fazer da vida um sonho com o intuito de a tornar real, ou então corremos o risco de fazer da vida uma eterna e amarga ilusão.
Bjs.

lynce disse...

Há três grandes e importantes acontecimentos nas nossas vidas, que são: o nascimento, o viver, e o morrer. Do nascimento, não temos sequer consciência. Com a morte sofremos à brava. Quanto à vida, a maior parte das vezes, esquecemo-nos de a viver.
É por tudo isto que eu nunca levei a vida demasiado a sério. A vida para mim é humor. É uma passagem que deve ser vivida sem excessos, mas intensamente, como se do último dia se tratasse.
Txiiiii...que grande comentário. Hoje estou mesmo inspirado e a principal fonte de inspiração deve ser o Jameson...

Blogadinha disse...

Art,
"you can make a wish or you can make it happen"... Subscrevo a tua perspectiva. E cuidado com os caracóis! Bjo :)

Lynce,
A vida é um acontecimento por si só. Importa ser vivida - como soubermos e da melhor maneira que pudermos! P'ra mim é com duas pedras de gelo, sáxafor. :)

Anónimo disse...

É urgente saborear a VIDA.
Pintá-la com as cores que vêm de dentro de nós.
Um texto com a qualidade de sempre.Muito bom!
bj
RS
dolce

Sun Melody disse...

Viver a vida é algo de delicioso, uma constante simbiose reflectida na beleza dos acontecimentos, e a melhor que tanto admiro é a espontaneidade no desenrolar das acções.

Sorria, sentada na paragem de autocarros à espera da vinda do transporte que me levaria a lugares cosmopolitas, que com o seu silêncio ensurdecedor aninhavas de olhos semi-cerrados o sentido de audição. A música motorizada ecoava interiormente com o balançar do vento, as árvores dançar. Que melhor momento pode dar a uma pessoa, cujas lágrimas escorrem abaixo como um rio na face transparecendo a alegria de escutar através de um sentido que esteve ausente durante 20 anos? Há um intenso amor pelos sons. Ora vive e sente.

Beijo
Sun Melody

I disse...

Gostei deste tom surrealista... e das cores audíveis do caracol!

eco disse...

alegoria perfeita.

eco

Helinha disse...

Amiga querida...

Que texto lindo!

A vida tem seus segredos e suas surpresas, que podem estar escondidas em um belo dia, entre roseiras e caracóis multicoloridos...

É preciso estar atento, nunca se sabe quando a vida nos sorrirá, trazendo alegrias nos balões...

Parabéns, encantei-me com seu relato!

Beijos doces!

Blogadinha disse...

RS, e assinar por baixo a pintura!
Obrigado. Bjo

Sun Melody, a vida é pintura abstracta - por mais vasta a sua interpretação, impera o traço único de quem a executa... Grata pela partilha do teu :)

I e Eco, obrigado!

Helinha, reaparece quem vive![:P]
Identificar um braço é simples, segurar a mão nem tanto - mais do que o reconhecimento, a valia da predisposição. Bjos [:))]

M disse...

Olá amiga: Adorei este texto esta fantástico. Mesmo lindo.
Parabéns
bjs

lynce disse...

Ó meu torrãozinho de açucar, passei aqui convencido de que havia novidades, mas já vi que, para além do aumento dos impostos, aqui não se passa mais nada.
Estou saindo como entrei, de mansinho.
:)))

Blogadinha disse...

M, obrigado. Bjo

Lynce, por aqui tudo passa. Até mesmo a uva! [:P]Grata pela atenção e por tão agitada vidinha social... :)