15/06/2011

Brisa de verão



Desejo da expressão perpendicular.



Acto I
O sol boceja pela fresta da janela. O seu bafo quente abraça-lhe a tarde em segunda mão e o gin destila o espírito em estado puro. Ela finge que não o vê. Tamborila melodias surdas no ar e sorri. Da inspiração à decadência, conhece de cor a letra de todas as canções. Refinadas e orelhudas. Do refrão cadenciado ao verso de pé quebrado. Boas e más. Sobretudo as más: descontraídas e desconstruídas. Imperfeitas. Como o sorriso da Mona Lisa. Esboçado sobre as ondas sem aviso do peitoral dele em que ela naufraga a última estrofe: “Sou tão sexy que até dói!”. Silenciam-se os dedos, trilha-se o sol e renova-se o gin. Sim, ela não sabe cantar.

Acto II
A janela é aberta de par ao par e o bafo fresco como a mão que repousa sobre o espírito. Ele finge que não repara que ela finge que não reparou nele. Belisca as cordas na poesia singela daquele ser carmim e rouba dois acordes à guitarra. E outros dois. Os mesmos dois. E sorri. Da lingerie rendada ao saiote saloio, conhece as malhas da dança como ninguém. Cose nota a nota uma semana e veste a pauta ao Domingo. Aprecia palavras encharcadas. Boas e más. Sobretudo as dela: inefáveis e inesperadas. Perfeitas. Como as ondas 80% achocolatadas do seu cabelo em que ele tropeça um terceiro acorde embriagado. Mona Lisa range os dentes.

Acto III
Cheira a lua, a terra prometida e demais lugares comuns. O gin escorre pelas gargantas até à acidez do mergulho. Lima limão. Ela olha para ele e sorri com os mil e sete adjectivos que só o coração decifra. É mulher tragada pelo amor desde o primeiro acto. Mona Lisa suspira. Ele olha e sorri. Primeiro para ela e depois com ela. Porque sabe. De si como dos cubitos de gelo feitos fingimento rendido aos desígnios do segundo acto. De ambos, como a certeza do bolero arranhado em pensamento uno. Mona Lisa ensaboa os dois copos e meneia o pé. Ele abraça-lhe a tarde em segunda mão. Belisca-se o espírito em estado puro. Desalinham-se as rectas na oitava nota musical da guitarra. A janela amanhece semicerrada à segunda-feira e o sol ressacado. Espreguiça uns quantos raios, coloca os óculos escuros, boceja e sorri: “Sou tão sexy que até dói!”


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Porque uma Blogadinha nunca se deixa dormir, repousa...!
Via e-mail, o mimo da new optimism (ed. N.º 8) – obrigado!

10 comentários:

S* disse...

Este texto cheira a Verão. Adoro.

Antonio José Rodrigues disse...

Epílogo

A Mona Lisa desfila faceira com passos de bailarina seguida pela melodia das folhas secas de outono. Tudo amarela, menos os olhos tingidos pelas lentes escurecidas. Por favor, mais gin com gelo para embriagar meus pensamentos, Beijos

Lina disse...

Debaixo dos 42 graus que fizeram hoje, também esta "traila" me passou à frente do nariz :)

Moi disse...

Que bom momento eu tive agora o prazer de desfrutar...

Beijo

Sus

H A R R Y G O A Z disse...

Have a SUPER week !

M disse...

Como sempre adorei, senti-me fresca ao ler este belo texto:)

Blogadinha disse...

MOI,
Grata. E bem-vinda ao blogue!

Blogadinha disse...

BLOGADINHOS,
À frescura das vossas palavras.
Siga para rascunho. Gosto-vos!

I disse...

Saudades do verão. "Bem feita..."

Blogadinha disse...

Da brisa encomendada. Nem mais. :)